Descer a Toca do Coelho...
Posted by RedRum | Posted in | Posted on 19:21
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SHUTTER ISLAND de MARTIN SCORSESE
Li um dia, um texto escrito por Jorge Paixão da Costa, na revista Premiere, em que este falava de Memória Cinematográfica como um daqueles momentos em que tudo num filme se conjuga a nosso favor: personagens, história, câmara, e que no fim nos deixa com um sentimento de plenitude e satisfação profunda. Pelo menos foi isso que eu me foi dado a entender.
E começo este Post com esta referência porque no final do visionamento de Shutter Island, veio-me logo à cabeça este texto e de como, de repente, todo ele fazia sentido neste filme. Mas quanto a louvores, já lá vamos...
Este filme conta a a história de dois U.S. Marshalls que viajam a um Hospital Psiquiátrico, instalado numa ilha, para investigar o desaparecimento de uma paciente. Mas nem tudo é o que aparenta ser e desde cedo, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), sente que segredos lhes estão a ser mantidos e a sua investigação propositadamente dificultada. E o filme cresce...
Scorsese recebeu este projecto das mãos de DiCaprio, numa altura em que desejava fazer um documentário sobre o Cinema de Terror e, como tal, não podia ter vindo em melhor altura. Quando se alia a mestria no engenho com a motivação interior, o resultado não pode cair abaixo de fantástico. E fantástico é tudo o que se pode dizer deste filme.
Scorsese é o estudante de cinema que todos nós cinéfilos e/ou cineastas, gostávamos de ser. Alguém com uma cultura vastíssima, derivada de anos de prática e, sobretudo, de muitos filmes na na bagagem. Mais os vistos que os feitos. E são vários os momentos visiveis dessa cultura.
Na cena em que os dois Marshalls são conduzidos até aos portões do Hospital, Scorsese coloca-nos ao som de “Sinfonia No. 3: Passacaglia - Allegro Moderato” de Krzysztof Penderecki, criando em nós uma tensão enorme. Tensão essa em que só falta os actores representarem com aquele over-acting típico do cinema de terror antigo. Mas é aqui que Scorsese nos tira o tapete, porque, realmente, a tensão não é sentida pelos personagens, criando aqui o efeito de um falso clímax.
O que vemos então aqui é uma homenagem ao cinema de Terror de Jacques Tourneur e a todo um género que muitas vezes foi tido como menor na História do Cinema (leia-se “Série-B”).
A Iluminação deste filme é algo de extraordinário, fazendo jus à propositada homenagem de Scorsese ao Gótico, fazendo grandes contrastes de Luz e sombra e com clarões de luz muitas vezes deliberadamente exagerados, mas de uma elegância, mais uma vez, extraordinária.
Como jovem que sou, não consigo deixar de criar uma relação entre este filme com aquilo que considero ser as minhas inspirações. Mas o que é facto é que, e aqui corro o risco de ofender os puristas, considero que Scorsese conseguiu criar a ponte entre os clássicos de terror e o terror proporcionado pelas novas plataformas. Falo dos videojogos. Principalmente nas cenas de sonho de Teddy, todo o ambiente visual e sonoro lembrou logo um casamento entre esses filmes clássicos e jogos de terror psicológico como Silent Hill.
Toda a atmosfera de demência e insanidade, filmada com aquela elegância e montada com todos os timings certos, fez-me saltar de alegria. Finalmente alguém conseguiu desviar-se dos clichés e fazer um terror dramático como deve ser. Dá vontade de pedir a Scorsese para continuar a investir neste género, explorando-o ainda mais.
Muito mais se podia dizer deste filme, desde as intermináveis referências cinéfilas, às excelentes interpretações de todo o leque de actores conseguiu reunir, mesmo para pequenos papeis. Referencia especial para o actor Ted Levine, que pouco mais de 2 minutos de screening tem neste filme, mas do qual nunca me hei de esquecer pelo seu papel do Serial-Killer travesti Bufalo Bill em O Silencio dos Inocentes (um dos piores momentos da Academia de Hollywood, ao nem sequer nomeá-lo por este papel).
Alguns sectores críticos têm recebido este filme com alguma relutância, apelidando-o de “estranho” na filmografia de Scorsese. Pois, para mim, após uma década a fazer filmes para os Óscares: Gangues de Nova Iorque, O Aviador e The Departed – Entre Inimigos (não está posta em causa a real qualidade dos filmes), saúdo um filme que, mais do que ser um excelente filme de Scorsese, foi um filme que me fez esquecer que estava a assistir a um filme da sua autoria. Pela história fascinante, uma fotografia aterradora, uma excelente montagem e, acima de tudo, pela verdadeira Mão de Mestre, pela segurança com que filma, sabendo exactamente aquilo que quer fazer e sabe-lo exactamente com o fazer. E é aqui que reside a sua verdadeira magia. Este é o filme que Cape Fear, também de Scorsese, não conseguiu ser. Por todas as razões acima descritas. E não haverá 3-D que baterá esta mestria em Cinema!
É como o vinho do Porto. Daqui a uns anos veremos a verdadeira magnitude e qualidade do filme reconhecida, quando de facto ela sempre esteve lá. E é destas memórias cinematográficas que vale a pena viver.
Bravo Scorsese!

Alice: But I don't want to go among mad people.
Gato: Oh, you can't help that. We're all mad here. I'm mad. You're mad.
Alice: How do you know I'm mad?
Gato: You must be. Or you wouldn't have come here...
Alice no País das Maravilhas, Lewis Caroll.

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